
Me lembro desse dia como se fosse hoje. Minha primeira aula de Desenho de Observação da faculdade de Arquitetura. Meu pai fez questão de ir comigo...e estava pronto antes de mim. Sentei-me em frente aos famosos jardins de Burle M. e com tamanha dificuldade tentava retratar aquelas formas geométricas. Não percebi que meu pai havia se sentado atrás de mim e que fazia esse desenho. Ele eternizou aquele momento nesse pedaço de papel. Quando acabei o meu, torto que só, o dele já estava pronto e além do jardim eu também fazia parte da paisagem. Muito emocionado ele me entregou o desenho e nos demos um forte abraço. Dali, fomos ao Garota da Urca e tomamos um porre, pai e filha e conversamos sobre tudo que se possa imaginar.
Eu tinha apenas dezoito anos. De lá para cá muitas coisas aconteceram. Tentei levar essa faculdade até onde pude. Contudo, com o tempo me dei conta de que não a fazia por mim, mas por ele. Percebi que seguia um sonho dele e não meu. Mas segui sem querer desapontá-lo. Até que um dia não pude mais esconder isso.
Meu pai adoeceu e me senti na obrigação de lhe ser sincera. Para minha surpresa ele me disse:
- Filha, o amor de pai está acima disso. Faça o que manda o seu coração, posso tentar te guiar, mas a vida é sua. Ninguém tem o direito de interferir na vida de outra pessoa mesmo que a ame muito.
No dia seguinte tranquei matrícula e ingressei em outra faculdade - de Jornalismo. Ainda, com medo contei a ele e mais uma vez ele me confortou:
- Querida, você se sairá bem no que escolher fazer, não tema o desconhecido. Vai em frente!
Seis meses depois ele faleceu. Hoje compreendo cada palavra que me disse e cada gesto dele.
Agora que sou mãe, sei que pais não são perfeitos e às vezes são tão inseguros quanto os filhos. Sei disso por que aprendo diariamente com meu filho. Hoje percebo que muitas vezes era ele que precisava de mim.
Com suas imperfeições e virtudes me ensinou valores que não tem preço. Com uma sabedoria incrível, ele transformava um almoço de domingo numa aula de história ou de geometria com maestria. Como sinto saudades daqueles almoços embalados a Chico Buarque, Beatles ou Bob Dylan. Como me faz falta aqueles vinhos que tomávamos enquanto ele contava uma piada ou algo que ocorrera numa viagem. Muito do que sou hoje e do que passo a meu filho eu devo a ele....
Obrigada meu pai por todos aqueles momentos e pelo que você me fez enxergar da vida, das pessoas e do amor. Hoje, seria seu aniversário, queria lhe dar um abraço apertado, mas como não posso, escrevo essas palavras as pessoas que me são caras para que através dessas ele possa sentir o meu amor
Te amarei para sempre...
Michele
Escrito por Mi às 11h58
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A mão que escreve este poema não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse nem ligasse
Por muito tempo achei que a ausência era falta
e lastimava, ignorante, a falta
Hoje não a lastimo...
porque a ausência, essa ausência assimilada
Ninguém rouba de mim.
Drummond
Escrito por Mi às 11h02
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